Aloísio Nunes pode faturar nas urnas a crise da Venezuela

Aloysio Nunes

Um artigo do general Sérgio Westphalen Etchegoyen, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, ressaltando a importância e oportunidade da ENINT (Estratégia Nacional de Inteligência), programa de informações secretas internas e externas do governo brasileiro, acende uma luzinha amarela no painel da política externa: nesta entrada do ano de 2018 a crise da Venezuela dá sinais de que pode transbordar para uma guerra civil, bem na fronteira mais conturbado do Brasil neste momento.

O artigo de um figurão venezuelano no exílio publicado na imprensa internacional acendeu o rastilho. Ricardo Haussmann, ex-ministro do Planejamento (1992-93) e que depois de fugir do País foi economista-chefe do Banco Interamericano (organismo da ONU) e agora é diretor do Centro de Desenvolvimento Internacional da Universidade de Harvard, escreveu conclamando à comunidade mundial para uma intervenção militar na Venezuela.

Seus argumentos seriam ridículos se ele estivesse, efetivamente, pensando o que escreveu. O que se conclui é que ele lançou uma tocha acesa para acender o pavio de um levante militar interno para derrubar o presidente Nicolás Maduro. Se esse movimento for consistente, guerra civil é inevitável, pois o sucessor de Hugo Chávez tem forte esquema militar, que pode resistir a uma rebelião de parte das forças armadas.

Com apoio político, financeiro e logístico internacional, uma força dissidente poderia se sustentar, criando uma situação de beligerância. Este é o perigo. Não só da avalanche de refugiados que um conflito de grandes proporções e durabilidade provocaria, mas também pela saia justa em que o Brasil se veria metido se começasse a correr bala de canhão no país vizinho.

A profundidade da proposta é muito duvidosa, embora seja improvável que uma personalidade como Haussmann se dispusesse a uma gafe deste tamanho se não tivesse uma carta na manga. Entretanto, vozes consequentes de formadores de opinião descartam a possibilidade de uma intervenção militar estrangeira na Venezuela. Foi o que disseram expressões venezuelanas como Colette Capriles, Xavier Costaguela (diretor do jornal “Tal Cual”, de Caracas) ou analistas brasileiros como Matias Spektor, da Fundação Getúlio Vargas, ou Clóvis Rossi, decano a crônica internacional da imprensa brasileira.

Bem ou mal, com fraude ou sem fraude, há uma porta aberta com as negociações para uma saída eleitoral entre oposição e governo numa conferência de paz em andamento na República Dominicana. Uma explosão de violência armada seria algo inaceitável e botaria o Itamaraty num a saia justa.

Já o ministro-senador Aloísio Nunes poderia fazer uma limonada no caso de um aumento de temperatura na fronteira norte. Titular de um ministério sem expressão eleitoral e com um pleito difícil pela frente, bem que o tucano paulista poderia montar no cavalo encilhado que passaria à sua frente, condenando o desastrado ditador de Caracas e animar sua reeleição como paladino da liberdade na América do Sul. Em São Paulo bater em Maduro dá voto. O chanceler brasileiro já se apresenta como o grande alvo e adversário internacional eleito por Maduro, que acaba de expulsar o embaixador brasileiro. É um bom prato para a ceia das urnas em outubro. Basta espremer os limões e adoçar o suco.

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José Antônio Severo
Jornalista há mais de 40 anos na imprensa econômica, foi editor executivo da revista Exame, editor e diretor da Gazeta Mercantil, editor chefe do Jornal da Globo e diretor geral de Jornalismo da Rede Bandeirantes. Foi repórter dos jornais O Estado de S. Paulo e O Globo, das revistas Realidade e Veja. Na televisão foi integrante da bancada do programa Crítica&Autocrítica da Rede Bandeirantes e âncora do programa Primeira Página da TV Nacional de Brasília. Autor, dentre outros, dos livros “Os Senhores da Guerra” (L&PM Editores) e “Cem Anos de Guerra no Continente Americano” (Editora Record). Produtor e roteirista de longas metragem.