A inútil queda de braço na crise dos fretes

Foto Marcelo Pinto/APlateia

É o nirvana dos adoradores do mercado. Todos os agentes enredados na mesma teia. Este é o resultado dessa grande confusão iniciada com a chamada “greve dos caminhoneiros”. O ministro Blairo Maggi nem sabe o que dizer, se é a favor ou contra; a presidente da Frente Ruralista, deputada Tereza Cristina (DEM/MS), não tem para onde se virar.

Todos os envolvidos estão atônitos: os produtores sem mais margem (lucro) para pagar o frete tabelado; os transportadores não conseguem fregueses pela tabela do Michel Temer; o consumidor final se retrai, segurando os preços na ponta, no limite de seus ganhos de desempregado.

Seria o caos? Nada disso, pelo contrário, olhando a presente crise pelo ponto-de-vista da ciência econômica, este é o “momentum” em que as abóboras se reacomodam na cesta. Os preços vão se realinhando por eles mesmos. Neste caso, como todos perdem, dá gritaria. Muita gente vai ficar fora do jogo.

Neste momento a queda de braço, metáfora imperfeita, pois ninguém conseguirá vencer completamente o adversário, como no jogo de pulso, está entre dois segmentos de baixa flexibilidade, devido à urgência de suas demandas: de um lado os produtores rurais com suas safras e seus produtos perecíveis na beira da estrada a dizer que o consumidor não aguenta o repasse de custo do transporte; de outro lado o transportador autônomo (ou semiautônomo, comissionado, remunerado por tarefa ou o que for, menos carteira assinada) com a tabela na mão sem encontrar cliente para sua carga. Final do jogo: os dois vão ter que ceder.

O recuo dos atores não é um folguedo lúdico. É jogo a dinheiro. Quando se diz que os dois perdem fala-se que somente os mais eficientes vão sobreviver. É a tal condenadíssima lei do mercado. O produtor que não conseguir colher a mesma soja, por exemplo, por um custo menor, vai ter que abrir a porteira da lavoura. Vão continuar no negócio aqueles que já vinham à frente e, neste momento, podem aguentar um frete mais alto para esvaziar seus silos da colheita de verão, antes da chegada do milho da safra de inverno. Sobrevive.

Foto Tânia Rêgo/Agência Brasil

Mais custos derivados da alta do petróleo, além do frete reajustado: diesel para as máquinas, petroquímicos para defensivos (ou agrotóxicos, como queira o leitor) e fertilizantes. Vai muito dinheiro em derivados de petróleo no alimento que o consumidor encontra na gôndola do supermercado.

No outro lado está o transportador, com seus caminhões de vários tipos, idades variadas com eficiência diferenciada, precisando entrar imediatamente na estrada porque carreta parada é prejuízo. Só vai rodar quem tiver sua máquina melhor ajustada, talvez mais moderna, que tenha negociado bem seu lote de pneus e que tenha estacionado vazio na frente da casa, um com carro mais novo, que não tenha tantos custos de manutenção. Também conta muito o custo do financiamento. Aí está um ponto onde o governo pode ajudar, com seu BNDES.

A crise demanda soluções criativas e ousadas. Por exemplo: organiza-se na Universidade Federal de Santa Catarina uma Startup liderada por um ex-aluno graduado na famosa Faculdade de Engenharia Mecânica da UFSC, o engenheiro Eduardo Fayet, um sistema ou produto (como se queira denominar), que aumenta a eficiência do combustível e produz economia do diesel e reduz fortemente a emissão de gases tóxicos. Será que o BNDES está a par desse projetinho que nasce numa universidade distante (mas campeã nas avaliações)? É de coisa assim que pode vir solução economicamente viável e não de decretos e acordos.

Neste caso, trata-se de um sistema denominado FES (Full Economic Solution) que reduz custos e aumenta e eficiência dos motores. Um piloto já está em testes numa termelétrica do Rio Grande do Norte. São desses sonhos de jovens acadêmicos que sairão soluções, das bancadas de inovação das universidades para o tanque de combustível das grandes jamantas que rodam pelas estradas brasileiras.

Entretanto o que se vê na imprensa e nas tribunas dos parlamentos são políticos e particulares pressionando o executivo para revogar a Lei da Oferta e da Procura com uma canetada. São esses “argutos” sindicalistas e “pacientes” políticos que se iludem chegando a um acordo para domar as forças insensíveis do mercado no “tapetão”.

Muito fácil: deram um bilhete azul para o engenheiro Pedro Parente e lá se foi o problema. Quando chegam à realidade e não encontram o pote da fortuna, essas pessoas ficam se acusando mutualmente de traições e mentiras. É o que estamos vendo neste momento na imprensa, nas tribunas do Congresso Nacional, das assembleias legislativas. Até nas câmaras municipais, se ouvem os clamores dos vereadores apavorados com o manto de nuvens ameaçadoras que está cobrindo as regiões agrícolas do País. A eleição está aí. Sem solução, chamam os pajés do novo Brasil, os juízes do Judiciário. Não vai dar em nada.

A verdade dos fatos é que a cadeia do petróleo mexe com toda a estrutura produtiva do mundo e cai como uma pedra na cabeça do consumidor final. Subiu o óleo cru no porto de embarque do Oriente Médio. A OPEP ainda dá as cartas. Subiu o dólar no mundo inteiro em relação a todas as moedas do mundo. O tesouro norte-americanos colhe a vaza. Os caminhoneiros e seus fregueses caíram no contrapé.

Por enquanto o estrago dessa mexida no preço do petróleo e da valorização do dólar está só nas beiradas, atingindo agricultores e transportadores. Já vai pegar os demais setores, como a indústria e o comércio.

Na indústria os plásticos são matérias primas de largo uso. Esta alta vai bater no preço da nafta e do gás natural, que é matéria-prima petroquímica. O preço do frete não pesa tanto no custo de produtos industrializados.

No comércio também pega mal, tanto pelo aumento dos custos de movimentação de mercadorias como de venda dos bens que vão para as prateleiras. Na ponta do consumidor não há sinais de aumento da renda, que seria o contrapeso do aumento de custos. Portanto, mais recessão pela frente.

Tite e suas preocupações. Foto Lucas Figueiredo/CBF

Os economistas ortodoxos dirão que essa crise de custos é o purgante necessário para a purificação do organismo econômico. Também diriam: os fundamentos econômicos do País estão saudáveis, as reservas em moedas fortes nos preservam de uma crise cambial e a Copa do Mundo está aí: uma boa vitória da seleção de Tite e do quarteto de ouro (Neymar, Coutinho, Willian e Jesus) pode mudar o astral. Isto é um fator relevante para uma retomada. O sonho é livre.

E as eleições? Não há prognósticos. Está tudo igual. Os atores da economia supõem que o poder real vai se concentrar no legislativo, mandará quem tiver maioria do Congresso. Os presidentes dos partidos serão atores relevantes no próximo governo. É preciso negociar com esses aí. Os plutocratas estão de olho nas bancadas.

Chega? Então encerramos com Nelson Rodrigues: “A vida é como ela é”.