Exército pode matar no Rio o monstro que criou ao militarizar as PMs

Uma das réguas para medir o instinto político é a capacidade de sentir o cheiro do voto. Por essa métrica, a intervenção do governo federal na segurança do Rio de Janeiro causou forte polêmica, dentro e fora do Congresso, mas resultou em pouquíssimos votos contra a medida na Câmara e no Senado.

Rodrigo Maia e a relatora do decreto da intevenção, Laura Carneiro. Foto Orlando Brito

A intervenção pode até ser mais um tiro na água. Mas, em ano eleitoral, ninguém quer correr risco. Com todas as pesquisas mostrando que a segurança pública está no topo das preocupações das pessoas, o medo generalizado entre os parlamentares é entrar na contramão, perder a eleição e ficar sem o foro privilegiado.

Esse suposto efeito eleitoral da intervenção vai depender da avaliação dos eleitores sobre a sua eficácia em resgatar um mínimo de tranquilidade para quem a rotina é o medo.

A expectativa é de que essa sensação decorra do combate direto às quadrilhas que, só na capital, mandam e desmandam nos presídios, subúrbios, morros, avenidas e na cidade inteira.

O ministro da Defesa, Raul Jungmann, tal como fez na Câmara, foi ao plenário do Senado acompanhar a votação do decreto da intervenção. Foto Orlando Brito

Quem está à frente dessa operação diz ter outro objetivo, com a mesma relevância, igualmente complicado: desmontar o esquema no aparelho de estado, especialmente na Polícia Militar, que dá cobertura a toda essa bandalheira.

Não é uma tarefa fácil. Há tempos, a cumplicidade policial está fora de controle. De nada adiantou que os dois Tropa de Elite, filmes que bombaram aqui e lá fora, tenham escancarado essa macabra parceria. Nem os sucessivos escândalos em São Gonçalo e alhures.

Em seus arquivos, guardados com tanto zelo, o Exército tem registros que mostram a promiscuidade entre bandidos comuns, policiais e militares. Um deles é a investigação sobre o capitão Guimarães, um oficial do Exército que, depois de se cacifar nos porões da ditadura, se aliou a PMs contrabandistas, e, em ascensão meteórica, se tornou um dos capos do jogo do bicho no Rio e no Espírito Santo.

Em terras capixabas, ele patrocinou a carreira do bicheiro José Carlos Gratz, que, antes de ser desbancado por uma força tarefa federal, dava as cartas em todos os poderes do estado. A escalada de Guimarães e de Gratz teve o apoio da Scuderie Le Cocq, nome de batismo do Esquadrão da Morte que tanto terror causou no Rio e no Espírito Santo.

Capitão Guimarães trocou os porões pela ribalta, inclusive nas passarelas do samba, depois que a ditadura editou um decreto-lei — versão menos democrática das medidas provisórias —  em que as polícias militares de todo o país foram enquadradas como força auxiliar e reserva do Exército. Na prática, apenas oficializou o que vinha ocorrendo desde o golpe militar de 1964.

Em seu DNA, as PMs nasceram no Rio de Janeiro. Contam os historiadores que, um ano após a chegada de Dom João VI, foi criada no Rio uma divisão policial da guarda real, estendida depois. Com a proclamação da República em 1889, essas corporações viraram corpos militares de polícia.

Dois anos depois, com a promulgação da primeira Constituição republicana, os estados ganharam alguma autonomia e puderam organizar e batizar suas polícias militares. Depois do Estado Novo, em 1946, a Assembléia Constituinte definiu que essas corporações em todo país se chamariam Polícia Militar, a única exceção foi o Rio Grande do Sul onde até hoje mantem o nome de Brigada Militar.

De força auxiliar, a PM virou um problema para as Forças Armadas. O tamanho de seus contingentes, armamentos e  força política viraram uma ameaça. Ainda mais quando, em suas lutas corporativas, por salários e vantagens, tornaram estados reféns.

Relatórios de órgãos de inteligência militar alertam para o risco de um movimento conjunto das PMs gerar o caos no país. Diferente de um estado aqui e acolá, a União encurralada põe a democracia em xeque.

Se os militares conseguirem a proeza de separar o joio do trigo nas polícias do Rio de Janeiro, por si só, vão justificar a intervenção.

A conferir.