Huck relança candidatura no Faustão

Reclama-se muito que a Justiça Eleitoral não pune Lula e Bolsonaro por campanha antecipada – afinal, vivem viajando o país falando o que bem entendem – bom, Bolsonaro prefere o circuito Rio-Brasília-Nova York. Pergunta-se: a Justiça Eleitoral vê TV aos domingos? Pois Luciano Huck, ex-possível presidenciável, ou futuro possível presidenciável, dependendo da leitura – e Fausto Silva, dois dos mais caros e prestigiados apresentadores globais do fim de semana, se juntaram no “Domingão do Faustão” do último domingo, 07, para falar de política. Huck usou o espaço dado pelo colega de emissora, uma concessão pública de primeira grandeza, para negar que vá disputar a presidência nas eleições deste ano – o que já tinha feito oficialmente em novembro. No fundo, o que fez, e só não vê quem não quer, foi fazer uma tremenda propaganda política. E, ao vivo e a cores, usando um campeão de audiência, relançou (a suspeita de) sua candidatura presidencial, ao lado da falante postulante a primeira-dama Angélica.

O PT entrou com processo na Justiça Eleitoral alegando que Huck cometeu e se beneficiou de abuso de poder econômico e dos meios de comunicação durante sua participação no Palanque do Faustão. Acham que houve uma exaltação “subliminar” de Huck. Sinceramente, foi bem mais do que subliminar. Foi escancarado. Reveja quem quiser e diga o que acha, de verdade. Os líderes do PT na Câmara, Paulo Pimenta (PT-RS), e no Senado, Lindbergh Farias (PT-RJ), pedem a inelegibilidade de Huck ou a cassação do seu eventual registro de candidatura, além de pagamento de multa por parte do apresentadores e da Globo. Tem tudo para não dar em nada e, sem querer, o PT pode estar ajudando a turbinar uma candidatura que, em tese, não existe. Além de ser meio patético querer cassar uma candidatura fantasma.

Mas que houve propaganda eleitoral nada sub-reptícia, houve. Como escreveu Luiz Carlos Azedo, no Correio Braziliense desta terça, 09, “uma entrevista como a de Luciano Huck no Faustão de domingo não acontece por acaso, nem pode ser avaliada como algo trivial, sem conotação política. Mesmo que as intenções do apresentador e da direção da TV Globo fossem desfazer a ideia de que ele pode vir a ser candidato a presidente da República, o que todo mundo tem o direito de duvidar, o efeito de sua entrevista ao lado da mulher, a também apresentadora Angélica, foi posicioná-lo novamente como possível candidato. E mais do que isso, alavancá-lo nas próximas pesquisas de opinião”. Fato.

Luciano Huck disse que atuará no recrutamento de novos candidatos – o apresentador chegou a citar sua participação nos movimentos Agora! e Renova Brasil, voltados para a formação de “novas lideranças políticas”. E, sem papas na língua, como naqueles papos de mesa de bar, disse que a sociedade está “envergonhada da classe política” e que é necessário aproveitar “essa fratura exposta que aconteceu no Brasil nos últimos dois anos, de derretimento da classe política para reocupar esse espaço, ressignificar as coisas e tentar de fato botar um pouco de ética.” Talvez não seja crime eleitoral, sei lá, mas Huck falou demais, sem gastar um centavo de sua fortuna, em espaço nobre, na emissora do patrão. E, como todo mundo sabe, vai ficar por isso mesmo.

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Ricardo Miranda
*Ricardo Miranda Filho* é jornalista e analista sênior de informações. Formou-se na Universidade de Brasília em 1987. Por mais de 20 anos, foi repórter, editor, correspondente e chefe de Sucursal em alguns dos principais veículos de comunicação do País: O Globo, Jornal do Brasil, Folha de S.Paulo, Istoé e Correio Braziliense. Trabalhou na FSB Comunicação, onde, por oito anos, foi diretor do núcleo de Mídia & Análise. É diretor de Atendimento da Santafé Ideias, no Rio, além de colaborador da Avenida Comunicação. Também é sócio-fundador da RMPJ e da Revista Tablado. Entre as premiações que recebeu estão o Prêmio Esso de Jornalismo, com a equipe de IstoÉ, e Menção Honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. É pai de Bruno e Gabriela.