A morte de Che Guevara, há 50 anos

Sentado nesse banco de uma pequena escola da Vila de La Higuera, Che Chevara, um dos ícones históricos do Século XX, foi morto por um tenente bêbado. Foto Orlando Brito

Preste atenção nesse banquinho de madeira aí da foto, observado pelo menino à esquerda. Foi sentado nele que Che Guevara foi morto, há cinquenta anos na pequenina vila de La Higuera, na Bolívia. Nascido na Argentina, Che era médico e tinha 39 anos. Percorreu de motocicleta toda a América Latina até chegar a Cuba, onde juntou-se a Fidel Castro na luta contra o ditador Fulgêncio Batista. Tornou-se guerrilheiro e um dos ícones do Século XX.

Ernesto Che Guevara foi capturado no meio de um riacho seco, no fundo de um vale chamado Quebrada Del Churro, a 3600 metros de altitude, distante 150 quilômetros de Santa Cruz de La Sierra, uma das principais cidades da Bolívia. Além dele, outros 14 revolucionários também foram presos. Estavam desnutridos. Alguns doentes e todos abatidos.

O grupo liderado por Che Guevara foi cercado por um pelotão de 600 homens do Exército da Bolívia. A tropa de militares era comandada pelo capitão Gary Prado, treinado pela CIA – órgão de inteligência dos Estados Unidos – para combater a subversão na América Latina. Depois de duas horas de fogo pesado, restaram mortos “Miguel”, “Júlio”, “Coco Peredo”, companheiros de Che. Do batalhão, quatro soldados também morreram. Conta-se que dois bolivianos aliados de Guevara conseguiram desertar, no meio do tiroteio, correndo pelo desfiladeiro. Os demais foram presos.

Che estava encostado nessa pedra branca quando foi capturado, na Quebrada de Churro, perto de La Higuera, na Bolívia. Foto Orlando Brito

Ferido na perna e impossibilitado de caminhar, Che foi levado nas costas pelo companheiro “Benigno” até La Higuera. Lá, um vilarejo de apenas 40 casas, o guerrilheiro argentino que virou o grande mito da juventude do Século XX, seria morto com seis tiros desferidos por um tenente bêbado, Mário Terán, em 9 de outubro de 1967. No dia seguinte, o corpo foi levado para Valle Grande e apresentado como troféu pelas autoridades numa lavanderia no quintal de um pequeno hospital.

Somente trinta anos depois, é que seu cadáver foi descoberto. Hoje, portanto, 50 anos atrás, Che Guevara, era morto. Estava sentado nesse banquinho de madeira ai da foto.

Como foiJamais imaginei que a foto de uma pedra, imóvel, fosse ter tanta significância. Depois de cinco dias embrenhados nos confins da Bolívia, tínhamos uma certeza: só mesmo um apego irrenunciável à ideologia – ou à loucura – podia levar àquele fim de mundo alguém que não fossem os pouquíssimos nativos da região.

Éramos dez, divididos em dois jipões Land Rover. Jornalistas, somente eu e Dorrit Harazin, a única mulher do grupo. Havia ainda um radialista holandês, um historiador belga e um pesquisador americano. Além de nós cinco,  quatro guias bolivianos e um alemão, mateiros e chefe da viagem. Era 1997. Dorrit e eu estávamos fazendo uma matéria sobre os trinta anos da morte sem corpo do guerrilheiro amigo de Fidel Castro.

Coincidiu com a localização dos restos mortais do Che. O certo é que estávamos ali, na pequena escola de La Higuera, onde ele viu passar por seus olhos os últimos momentos de sua vida.

Após dez dias de viagem, percorrendo montanhas, cruzando rios e matas em estradas de terra do interior da Bolívia, chegamos ao fundo do Vale do Churro. Fizemos uma caminhada de duas horas para descer e outras três para subir, um cenário infernal. E eram somente dois quilômetros de onde deixamos os jipes.

O corpo de Che Guevara, moro em La Higuera, foi levado para a lavanderia do Hospital de Vallegrande.

Lampião chamaria de paraíso se o comparasse à caatinga do Nordeste brasileiro. Vegetação de garranchos e espinhos, terreno acidentado e sem caminhos. Impossível compreender como Guevara queria mudar o mundo a partir daquele deserto. Nem gente havia para aderir àquela revolução. Nem jovens, nem velhos. Nada mais além de ratões e cobras, meia dúzia de índios mascando folhas de coca e alguns urubus.

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Orlando Brito
Um dos mais conhecidos e premiados fotógrafos do país, Orlando Brito nasceu em Minas e chegou a Brasília ainda menino, no início de sua construção, em 1956. Fez viagens por mais de 60 países, em coberturas presidenciais, papais e esportivas, como Copas do Mundo e Olimpíadas. Tem seis livros publicados e quatro outros no prelo. Recebeu vários prêmios, entre eles o Press Photo do Museu Van Gogh. de Amsterdã. Onze vezes Prêmio Abril de Fotografia. Bolsa da Fundação Vitae, de São Paulo, em 1991. Várias exposições individuais e obras no acervo de diversos museus do mundo.