A incrível dificuldade de Dilma de concluir sua carta de despedida

A ex-presidente Dilma Rousseff - Foto Orlando Brito

 

Desde que o processo de impeachment chegou ao Senado, há quatro meses, fala-se sobre a possibilidade de Dilma Rousseff escrever uma carta aos senadores. Ela tergiversou. Em 12 de maio, o plenário do Senado confirmou por 55 a 22 votos a  decisão da Câmara de admitir a denúncia contra a então presidente da República.

Diante de tamanha derrota, Dilma intensificou as conversas com senadores tidos como indecisos e  com os aliados que ainda lhe restam para colher opiniões e subsídios para a tal carta. Havia divergências sobre o que propor.

Uns defendiam a narrativa de que há um golpe parlamentar no país e insistiam que a mensagem fosse de denúncia e, de preferência, acenasse com mudanças na política econômica que adotou em seu segundo mandato. Nessa linha, estavam os dirigentes do PT e de organizações como o MST.

Os senadores argumentavam que a carta fosse propositiva, e defendesse a convocação de um plebiscito para decidir sobre a realização de novas eleições presidenciais. Alguns sem votos ainda não definidos, como o senador Cristovam Buarque, em reuniões com Dilma, defenderam essa e outras propostas voltadas para o futuro.

Como sempre, Dilma demorou a decidir.  Em meio a um tiroteio com o PT, ela chegou a anunciar a adesão à proposta de plebiscito. Irritado com a entrevista de Dilma em que atribuiu à cúpula petista a responsabilidade pelo ingresso de dinheiro sujo em seu caixa de campanha, o presidente do PT, Rui Falcão, deu o troco. Detonou a proposta de plebiscito.

A novela da carta tem vários capítulos. Em algum momento, anunciou-se que ela seria divulgada antes da votação na Comissão Especial do Impeachment. Não vingou. Para variar, Dilma tomou uma surra na comissão – 14 votos a 5.

Do Alvorada saiu a notícia de que, sem falta, a Carta aos Senadores viria a público às vésperas da votação do relatório da Comissão do Impeachment pelo plenário do Senado. Não chegou. A derrota ainda foi ainda mais acachapante: 59 votos a 21.

No entorno de Dilma diz-se, agora, que a carta será mais enxuta e, em sua enésima versão, sai do forno semana que vem. Entre os petistas, inclusive senadores, a avaliação é de que  perdeu o prazo de validade, não causará impacto e nem mudará voto algum. A história registra cartas de despedidas de presidentes dramáticas. Uma delas, a Carta Testamento de Getúlio Vargas,  divulgada após o seu suicídio, teve enorme impacto na política brasileira – um deles foi atrasar o golpe de verdade dado pelos militares em 1964.

Até entre antigos aliados de Dilma, a expectativa é de que sua carta entrará para a história como um documento menor, um gesto patético, sem nenhum significado político relevante. O próprio Lula, em reunião com parlamentares em Brasília, não lhe deu nenhuma importância. Disse que a carta não era “essencial”.

 

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