Cessar fogo na Guerra da Vacina

A vacina já fez parte de muitas guerras. Ninguém sabe qual foi a primeira, mas, na América, a ocorrência pioneira foi registrada em 1492, segundo Charles C. Mann em seu livro 1493. Nesta região até então não existia hepatite, varíola ou gripe. Quando estas doenças desembarcaram no bojo das caravelas, o cálculo feito pelos historiadores é que elas dizimaram dois terços da população indígena. Esse terrível genocídio acabou provocando resistência de seu organismo a alguns vírus e bactérias.

A primeira vacina contra a varíola

Na China, sempre pioneira, a inoculação do vírus da varíola, hoje chamada variolação, já era praticada no século X. “A vacinação é precursora da medicina moderna e não produto dela”, diz Eula Biss em seu livro Imunidade. O que veio a tomar o nome de vacina era praticado desde o século XVIII na Inglaterra, onde se começou a praticar a variolação. De lá, em 1733, Voltaire — que tivera varíola dez anos antes — escreveu que “as mulheres do Caucáso desde tempos imemoriais dão a varíola aos filhos já aos seis meses, fazendo-lhes uma incisão no braço e inserindo uma pústula que retiravam de uma outra criança.” É ainda Biss quem lembra que Voltaire censurava o fato de os embaixadores franceses não terem levado esse hábito de Constantinopla para Paris.

Essas práticas provocaram grandes controvérsias e muitas revoltas. Não só no passado: sempre a vacinação esteve ligada à violência. Na caçada a Bin Laden os americanos simularam uma vacinação de hepatite tipo 2 no Paquistão e no Afeganistão para ter o pretexto de visitar casa a casa — vacinavam as pessoas, mas verdadeiramente queriam descobrir o esconderijo do terrorista que mandara explodir as torres gêmeas.

A Gripe Espanhola e a Guerra da Vacina, há cem anos

Aqui no Brasil a guerra da vacina de 1904, que envolveu grandes nomes da História brasileira, teve várias motivações: os cadetes da Escola da Praia Vermelha valeram-se dela para tentar um levante contra Rodrigues Alves; contra Osvaldo Cruz havia o ciúme pela ascendência profissional; e o nosso grande Rui Barbosa invocava o Direito, sustentando que a obrigação de submeter alguém a receber o vírus da doença em seu próprio corpo era uma violência do Estado.

Por trás, ontem e hoje, o egoísmo do homem, que tem algo, ou material ou intelectual, a defender em proveito pessoal. A guerra atual é entre laboratórios ingleses, americanos, chineses, alemães e de todo lado, cada qual querendo chegar na frente e tirar proveitos comerciais. Já os governos e políticos desejam obter dividendos eleitorais.

Mas, para felicidade nossa, a disputa que demorou esses longos meses — tempo em que se perderam tantas vidas — parece pacificada. O inimigo é o vírus e as outras discussões são secundárias. Tem lugar para todo mundo e, em âmbito mundial, todos serão vacinados, afastando o medo e a ameaça à vida.

As sequelas, contudo, são subjacentes, e aqui a luta continua, agora sob o manto de entendimento entre União, Estados, Municípios. Meios científicos e políticos continuam em fogo brando.

Mas, como acontece em todas as guerras, na nossa se acaba de fazer um pacto de cessar fogo. Já é uma grande coisa e a volta ao bom senso e a substituição da esperança pela certeza.

Habemus vacina. Ufa!

— José Sarney é ex-presidente da República, ex-senador, ex-governador do Maranhão, ex-deputado. Escritor. Imortal da Academia Brasileira de Letras (Artigo publicado também no jornal O Estado do Maranhão) 

 

 

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