Até onde irá a autofagia do PSDB?

Em 2016, o biólogo japonês Yoshinori Ohsumi ganhou o Prêmio Nobel ao mostrar que o processo de autofagia de um organismo não era algo ruim, mas na verdade um processo de autodefesa. As células tratavam de devorar o que nelas havia de danificado para tentar salvar o organismo. Um esforço de reciclagem.

Podem acontecer falhas nesse processo. Se a causa que danifica as células não é paralisada, acontece uma degradação excessiva: as células não param de se autodevorar. Também acontece às vezes de ocorrer mutações dos genes de autofagia, fazendo com que a célula não consiga se livrar de partes defeituosas ou comece mesmo a devorar as partes saudáveis. A ciência trata agora de encontrar mecanismos de controle desses processos autofágicos, estimulando-os ou inibindo-os conforme a necessidade.

O PSDB tem a chance agora de contribuir para o avanço da ciência oferecendo uma possibilidade de se verificar se aquilo que Ohsumi verificou na biologia acontece também na política.

A destituição do senador Tasso Jereissati (CE) pelo senador Aécio Neves (MG) do comando interino do partido foi o auge do louco processo autofágico do PSDB, do qual já falamos mais de uma vez por aqui. Que culminou ainda com Tasso dizendo com todas as letras quais são as diferenças que hoje enxerga ter com Aécio, falando claramente em concessões ao fisiologismo e que o “o PSDB desses caras” não é o seu PSDB.

Tentando aplicar as teorias do Prêmio Nobel à autofagia tucana, vamos ter que acompanhar o que acontecerá agora. Ou o PSDB pode cair num processo de degradação excessiva, no qual suas células não pararão de se autodevorar. Ou pode ser vítima de uma mutação genética que vitime as células saudáveis e não as cancerosas. Ou pode obter a depuração mesmo do organismo, que parece, segundo Ohsumi, ser a razão mesma da autofagia nos organismos.

No episódio da destituição de Tasso, houve uma aliança estranha e incomum para quem acompanha o tucanato há mais tempo. O senador José Serra (SP) deu uma mão a Aécio Neves. Serra, que andava sumido e muitos julgavam mesmo carta fora do baralho, reapareceu forte nos bastidores. O nome escolhido para substituir Tasso Jereissati é Alberto Goldmann, fortemente ligado a Serra.

Serra e Aécio são tucanos que não se bicam desde que Aécio resolveu se lançar, e se eleger, presidente da Câmara. Na ocasião, Serra era o líder do governo Fernando Henrique Cardoso, e havia um acerto para que se apoiasse a eleição de Inocêncio de Oliveira para o cargo, num agrado ao PFL, principal parceiro do governo. Aécio fez uma aliança com o PMDB e costurou à revelia da vontade do governo – e dos acertos feitos por Serra – sua candidatura. Daí para a frente, a relação entre os dois sempre foi fria. Aécio não ajudou muito Serra nas vezes em que ele foi candidato à Presidência, e Serra fez o mesmo quando o candidato foi Aécio.

Agora, os interesses se conjugaram. Aécio está nesse abraço de afogados com o presidente Michel Temer. Os dois apareceram na mesma denúncia do irmão Friboi, Joesley Batista, e colaboram um com o outro para desqualificar e não deixar que as investigações ali contidas avancem e prevaleçam. E Serra recoloca-se com o comando interino de Goldmann no jogo da sucessão, seja como opção de candidato à Presidência, seja para se lançar candidato a governador de São Paulo. De qualquer modo, retorna ao jogo e enfraquece seu maior adversário nesse processo, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin.

Há três hipóteses mais visíveis de final para o autocanibalismo tucano. O movimento mantém o PSDB no governo e a construção faz com que Temer tenha participação ativa na sucessão, sendo o candidato tucano o nome apoiado por ele. Prevalece a posição de Tasso Jereissati e o PSDB deixa o governo, fazendo ao final a depuração que ele preconizava. Ou os dois grupos seguem se devorando para infelicidade geral da nação tucana. Talvez seja o caso de Yoshinori Ohsumi voltar seus microscópios para o ninho tucano…