O Zeca disse não, prefeito!

Zeca Pagodinho com o prefeito de São Paulo, João Doria - Foto Renata Monteiro / Divulgação

“♫ ♫ Não deixa o Doria me levar (Doria não leva eu !)
Não deixa o Doria me levar (Doria não leva eu !)
Não deixa o Doria me levar (Doria não leva eu !) …. ♫ ♫ ♫”
Texto de um dos memes em cima do “encontro” Doria e Zeca

Madrugada de domingo, 11, Sambódromo do Anhembi, camarote Bar Brahma. Ocupando seu espaço pago entre as celebridades, o cantor Zeca Pagodinho trocou por uma noite o seu Rio de Janeiro para prestigiar o desfile paulistano. O prefeito de São Paulo, João Doria, que brilhava no camarote oficial da Prefeitura, cercado de convivas e bajuladores em geral, tirando selfies e distribuindo sorrisos montados, decidiu então fazer uma incursão no mundo artístico, indo ao camarote Bar Brahma, que fica ao lado. Lá, também posou com gente do jet set (eu sei, não se usa mais essa expressão), acostumados a convites para a Ilha de Caras e para áreas vips de shows. Talvez entorpecido pelo sucesso nas altas rodas, e pelo arrojo político que rendeu-lhe o mandato, esqueceu-se que o mundo real também anda fora da pipoca.

Doria, então, fez no camarote o que faz na vida – pessoal e política. Tentou cooptar. Com a arrogância de quem não está acostumado a ouvir negativas, partiu pra cima dos convidados patrocinados. Num dado momento, se deu mal. Ao entrar na área reservada a um sambista que deixa a vida lhe levar, ouviu um retumbante não. Zeca Pagodinho, que gesticulava com as mãos e fazia sinal de negativo com a cabeça, deixou claro que queria distância de Doria. Quando o prefeito lhe deu a mão, ficou com a cabeça baixa.

Foi necessário, segundo narraram os presentes, a intervenção do dono do camarote, Álvaro Aoas, que fez um “pedido” ao cantor – entre aspas, mesmo. Assim, depois de muita negociação das duas assessorias, Zeca concordou com a foto “oficial”, mas com uma condição: queria a presença de uma barreira segura entre eles, garantida pelo ex-jogador Amaral, com sua mulher, que estavam nas proximidades. A cena ficou tão natural quanto a de Tancredo Neves no Hospital de Base ao lado da equipe médica. Três horas depois da foto montada, o presidente teve nova hemorragia. Morreria alguns dias depois.

A cena emblemática, obviamente, virou meme nas mídias sociais. Zeca olhando para o nada, Doria sorriso Colgate no rosto, segurando-o pelos dois braços, forçando a amizade, como se diz. E a outra, já descrita, de Zeca enfezado próximo de Doria, “protegido” por Amaral. De tão forçadas, as imagens foram usadas até como paralelo de assédio. Na linha do ‘não, é não’. “Depois do não, tudo é assédio”, diz um dos memes, com a foto já clássica. “João Dória aborda Zeca Pagodinho para explicar o que é caviar”, é o tema de outro meme, que bombou nas redes. A foto utilizada na maioria dos memes, dê-se crédito, foi feita pela repórter Tatiana Santiago, do G1.

Daqui, de fora do camarote, fazendo do almoço o jantar, microondas como maitre, fico pensando para que adiantam tantos marqueteiros bem pagos se nenhum deles consegue dizer o óbvio para Doria. “Se cruzar com qualquer um que não seja claque ou puxa-saco, não tente insistir numa aproximação”. Deu chabu, como se dizia antigamente.

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Ricardo Miranda
Jornalista e analista sênior de informações. Formou-se na Universidade de Brasília em 1987. Por mais de 20 anos, foi repórter, editor, correspondente e chefe de Sucursal em alguns dos principais veículos de comunicação do País: O Globo, Jornal do Brasil, Folha de S.Paulo, Istoé e Correio Braziliense. Trabalhou na FSB Comunicação, onde, por oito anos, foi diretor do núcleo de Mídia & Análise. É diretor de Atendimento da Santafé Ideias, no Rio, além de colaborador da Avenida Comunicação. Também é sócio-fundador da RMPJ e da Revista Tablado. Entre as premiações que recebeu estão o Prêmio Esso de Jornalismo, com a equipe de IstoÉ, e Menção Honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. É pai de Bruno e Gabriela.