O ensurdecedor silêncio de Bolsonaro

Deputado Jair Bolsonaro. Foto Orlando Brito

Para alguém que fala pelos cotovelos, especialmente quando o tema é segurança pública, cala fundo o silêncio do capitão-deputado Jair Bolsonaro (PSL), que tem se omitido sobre o assassinato da vereadora carioca Marielle Franco (PSOL). Bolsonaro não é só o candidato presidencial da direita e da bancada da bala, foi eleito pelo mesmo Rio de Janeiro de Marielle. Há forte possibilidade de que Marielle tenha sido assassinada por policiais-bandidos, fardados ou milicianos – menos por criticar a intervenção no Rio e mais por denunciar sistematicamente a violência policial em áreas pobres do Rio, como Acari, na Zona Norte, onde fica o temido 41º Batalhão da Polícia Militar, o mais letal do estado. Piadista, Bolsonaro, únicos dos treze pré-candidatos à Presidência que não se manifestou, mandou dizer que está com intoxicação alimentar e não poderia falar.

Um assessor sugeriu que era melhor mesmo que ficasse quieto neste momento de comoção: sua opinião seria polêmica demais. Como se não soubéssemos o que pensa. Nas redes sociais, o presidenciável tampouco tocou no assunto até a publicação deste texto. O silêncio comprometedor ganhou um motivo adicional. Descobriu-se que as balas encontradas pela Polícia Civil após o assassinato da vereadora e do motorista Anderson Gomes, na quarta, 14, são do mesmo lote das capsulas encontradas após uma chacina que ocorreu em 13 de agosto de 2015, em Osasco e Barueri, na região de São Paulo. Na ocasião, a Companhia Brasileira de Cartuchos (CBC) informou para a corporação que as balas do lote UZZ18 foram repassadas à Polícia Federal. Os responsáveis pela investigação verificam, agora, se o mesmo lote foi usado em outros crimes, incluindo os que foram praticados pela milícia no Rio. Em 2008, Marielle trabalhou na CPI das Milícias, como assessora de Marcelo Freixo, que indiciou mais de 200 pessoas.

A vereadora Marielle entra no carro em que, minutos depois, receberia os tiros que tirou sua vida. Reprodução da tevê, GloboNews

Mas se Bolsonaro pai está em silêncio, a seita de fanáticos belicistas que o segue tem feito bastante barulho nas redes. O mínimo que dizem é que Marielle cavou a própria sepultura e que defensor de direitos humanos tem mais é que morrer crivado de balas. Eduardo Bolsonaro, filho do capitão e também deputado, tem retuitado opiniões lastimáveis. Mas também deu a sua própria. “Mais uma lição: se você morrer seus assassinos serão tratados por suspeitos, salvo se você for do PSOL, aí você coloca a culpa em quem você quiser, inclusive na PM. Eis o verdadeiro preconceito, a hipocrisia. ‘Para os meus amigos tudo, aos demais a lei'”. Outro filho de Bolsonaro, o deputado estadual Flávio, num surto de humanidade, chegou a dizer que lamentava a morte, em sua conta no Twitter, e que sempre tivera “relação respeitosa” com a vereadora. A mensagem, no entanto, foi apagada posteriormente. Talvez seja melhor mesmo Bolsonaro, o pai, continuar de boca fechada.

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Ricardo Miranda
Jornalista e analista sênior de informações. Formou-se na Universidade de Brasília em 1987. Por mais de 20 anos, foi repórter, editor, correspondente e chefe de Sucursal em alguns dos principais veículos de comunicação do País: O Globo, Jornal do Brasil, Folha de S.Paulo, Istoé e Correio Braziliense. Trabalhou na FSB Comunicação, onde, por oito anos, foi diretor do núcleo de Mídia & Análise. É diretor de Atendimento da Santafé Ideias, no Rio, além de colaborador da Avenida Comunicação. Também é sócio-fundador da RMPJ e da Revista Tablado. Entre as premiações que recebeu estão o Prêmio Esso de Jornalismo, com a equipe de IstoÉ, e Menção Honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. É pai de Bruno e Gabriela.