A ideologia das cores na Copa

O Brasil parece bravo como as feições do Canarinho Pistola, convertido pela CBF em mascote oficial do Brasil na Copa da Rússia, prestes a se iniciar. Por onde passa, o canarinho com a camisa amarelinha da seleção brasileira, faz mise-en-scène, tenta embaixadinhas, nina bebês e até tira mulheres para dançar. Supostamente o canarinho com cara de mal – ou “boladão”, como descrevem seus fãs no Twitter – tem o objetivo subliminar de passar a imagem de seriedade, garra talvez, de uma seleção que vai tentar superar o trauma dos 7×1 para a Alemanha, na Copa dentro de casa. Mas ele não entrará em campo na Copa – encerrou sua participação nos amistosos em e Viena – porque a Fifa irá dar prioridade ao seu próprio mascote, o Zabivaka. Mas voltando à raiva do brasileiro, estampada nas pesquisas eleitorais, nas ruas e nas redes sociais, quem pensa que a Copa será um intervalo de confraternização e congraçamento está muito enganado.

Foto Lucas Figueiredo/CBF

A associação da tradicional amarelinha, e mesmo a camisa reserva azul, com os chamados “patos paneleiros” – os defensores do impeachment de Dilma e, depois da prisão de Lula, que se uniformizaram para protestar – não está sendo esquecida. Pelas redes sociais, não se vê muita adesão a quem defenda torcer contra o Brasil porque isso poderia “fortalecer” Michel Temer, um argumento absurdo. Mas o debate sobre que cor de camisa usar está nervoso. Não são poucos os que, pelas redes, mesmo dizendo respeitar o manto usado por Pelé, Garrincha, Tostão, Falcão, Zico e Sócrates, acham que usa-lo agora seria um sacrilégio. A terceira camisa, azul, é uma opção para os, digamos, mais flexíveis. Lançada em março, pela CBF e Nike, a Coleção 2018 da Seleção Brasileira mantém as cores amarela, verde e azul como suas palhetas oficiais.

De olho nas tendências, por assim dizer, a designer mineira Luísa dos Anjos Cardoso quase comprou uma briga com a CBF – aparentemente foi feito um acordo – pelo uso da marca em uma camiseta alternativa, vermelha, com o escudo do comunismo – com uma foice e um martelo – do lado oposto do escudo. O modelo criado por ela e já postado por muita gente nas redes sociais, além da cor vermelha, tem o símbolo da antiga CBD, antecessora da CBF – uma forma de evitar processos. A CBD, no entanto, remete à época da ditadura. E a turma que hoje rejeita Marco Polo Del Nero, José Maria Marin e Ricardo Teixeira está, involuntariamente, prestando homenagens a homens como o Almirante Heleno Nunes, presidente da CBD entre os anos de 1975 e 1979, e a João Havelange, que dominou a entidade entre 1958 e 1974, quando assumiu a Fifa e ficou até 1998. Nas redes sociais e nos sites das boas casas do ramo, a camisa amarelinha sai por até 500 reais e a vermelhinha pode ser comprada pela bagatela de 40 reais. Isso se não inflacionar.

Mas, claro, imagina-se que muitos brasileiros, e isso não seria uma novidade, vão torcer com as camisas de seus clubes do coração. E com o Flamengo, maior torcida do país, disparado na liderança do Campeonato Brasileiro, é possível esperar muita gente de vermelho e preto na frente da televisão.

Chegada da Seleção a Sochi: Neymar com o terno azul. Foto Lucas Figueiredo/CBF