Sai a foto oficial de Temer, o Dorian Gray da República do PMDB

Foto Beto Barata/PR

“O apaixonado começa iludindo-se a si próprio e acaba enganando os outros”.
Trecho de O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde

Um ano e meio após assumir o Planalto, e a um ano de deixar o poder, o presidente Michel Temer finalmente tem uma foto oficial. Sim, uma foto para a galeria de presidentes da República – quarenta e dois homens e uma mulher. Sem faixa presidencial, com uma bandeira ao fundo, livros encadernados numa estante, uma das mãos no bolso – na linguagem corporal clássica, só rivaliza com braços cruzados para simbolizar insegurança – e outra escorada sobre a mesa, aliança à mostra. Terno escuro, gravata listrada azulada, sóbria. E um sorriso que desencorajaria Leonardo da Vinci a pintar sua Monalisa enigmática. A imagem é a primeira de um presidente brasileiro a usar o plano americano – enquadramento em que se mostra a pessoa dos joelhos para cima. Bem ao estilo ianque. O último presidente a posar sem faixa foi Itamar Franco, outro interino, que assumiu após um impeachment – em circunstâncias bem diferentes, como todos sabem e a história registrará.

Em janeiro, um retrato de Temer usando a faixa chegou a ser divulgado pelo Palácio do Planalto, mas apresentado como uma “versão preliminar”. A nova foto, feita na biblioteca do Palácio da Alvorada em maio, ficou estocada esperando a Câmara sepultar, ao preço que hoje se conhece, as duas denúncias apresentadas pela Procuradoria-Geral da República contra Temer. O Legislativo ficou cinco meses ocupado com a discussão das denúncias, e a foto esperando o destino do seu retratado. Ele ficou, a foto saiu. Esclareça-se que o talentoso fotojornalista Beto Barata, autor do retrato e um dos profissionais que servem à Presidência, não tem nada a ver com isso e fez o seu trabalho.
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A princípio, a fotografia não será distribuída para órgãos do governo e repartições. No entanto, estará disponível para download no portal do Palácio do Planalto e perfil da Presidência no Flickr. O retrato também não deve ser colocado na galeria dos presidentes no andar térreo do Planalto. Somente os ex-governantes contam com as respectivas fotos oficiais no local. Até virar ex-presidente, Temer poderá continuar a construir o que chama de legado, custe o que custar. Como no Retrato de Dorian Gray, clássico de Oscar Wilde, que apresenta a história da corrupção moral por meio de esteticismo, o importante, afinal, é estar bem na foto.

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Ricardo Miranda
Ricardo Miranda Filho é jornalista e analista sênior de informações. Formou-se na Universidade de Brasília em 1987. Por mais de 20 anos, exerceu as funções de repórter, editor, correspondente e chefe de Sucursal em alguns dos principais veículos de comunicação do País: O Globo, Jornal do Brasil, Folha de S.Paulo, Istoé e Correio Braziliense. Trabalhou na FSB Comunicação, onde, por oito anos, foi diretor do núcleo da Mídia & Análise. É professor licenciado de Jornalismo da PUC no Rio. Entre as premiações que recebeu estão o Prêmio Esso de Jornalismo, com a equipe de IstoÉ, e Menção Honrosa no Prêmio Vladimir Herzog.