O Mercado procura

Ilan Goldfajn presidente do Banco Central. Foto Orlando Brito

Depois do peso argentino, foi a vez do real enfrentar um ataque especulativo.  Ao longo da semana que passou, o real desvalorizou-se 5% em relação ao dólar, cuja cotação de venda fechou em 3,925 reais (até quinta-feira, 7), mesmo diante da forte atuação do Banco Central para estabilizá-la. O ataque encontra-se em pleno andamento, aguardando-se novos lances na semana entrante.

Pressionado a elevar a taxa básica de juros para conter o ataque especulativo, o presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, declarou que a política monetária, que define o tratamento a ser dado aos juros, e o câmbio são questões que serão enfrentadas separadamente, ou seja, que a instituição não promoverá elevações na taxa Selic para enfrentar a onda especulativa, como já fez em episódios especulativos anteriores. E antecipou que o Banco Central ofertará US$ 20 bilhões em swaps cambiais até sexta-feira, 14 de junho. Quem viver verá, mas muitos apostam que o Banco Central terminará cedendo.

O ataque a moedas de países periféricos no sistema mundial iniciou-se após a mais recente elevação na taxa de juros dos títulos do tesouro norte-americano, sinalizando a aceleração do fim do período da política de juros anormalmente baixos que o Banco Central daquele país adotou depois da crise financeira de 2008.

Turquia e Argentina foram os primeiros alvos, mas o mercado passou a apontar suas apostas contra o real, visto por muitos analistas como a bola da vez.  A incerteza eleitoral é componente decisivo na instabilidade reinante.

As voltas que o Mundo dá

O Mundo gira, a Lusitana roda. Nas voltas que o mundo dá, as turbulências políticas se sucedem com frequência intensa desde que o período da grande moderação deu lugar à instabilidade e ao baixo crescimento característicos do pós-2008.

Seria de grande utilidade que levantamentos exaustivos elaborados por cientistas políticos informassem a frequência de alternâncias de blocos no poder, por via democrática ou não, depois da deflagração da crise financeira internacional naquele ano.

Na Nuestra América, governos de vertente popular, que haviam sido eleitos na esteira das crises cambiais da segunda metade dos anos noventa e que surfaram nas ondas favoráveis do longo ciclo de commodities com cotações favoráveis iniciado nos primeiros anos do novo século, foram varridos do poder, por via eleitoral ou não, depois que a crise econômica se aprofundou no subcontinente a partir de 2013; no Chile, na Argentina, no Equador, no Paraguai, no Brasil e em repúblicas centro-americanas.

No momento atual, governos que contaram com amplo apoio do Mercado, essa entidade aparentemente abstrata, mas que sabe defender como poucos, de forma muito concreta, seus interesses e pontos de vista, como Maurício Macri, na Argentina, e Michel Temer, no Brasil, enfrentam ondas de descontentamento popular.

Orfandade

O pré-candidato à Presidência, Geraldo Alckmin. Foto Orlando Brito

No Brasil, o ocaso do governo Temer é melancólico e frustra, mais do que a parcela da população que foi às ruas pelo afastamento de sua antecessora, os fiadores da transição para o novo governo em 2019.

Claro que não foi só o mercado o fiador do projeto de transição entre o governo afastado e o novo mandato presidencial; foi uma aliança maior, cuja abrangência fique mais bem delimitada sendo definida como o establishment, que atualmente se ocupa em buscar construir uma alternativa eleitoral a partir do que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, sempre precioso na sua criatividade em dourar a pílula, denominou de o Centro Democrático e Reformista.

A paralisação dos caminhoneiros instalou a percepção de falta de rumo no país, que é agravada pelas incertezas em relação à disputa presidencial em outubro próximo.

O chamado Mercado se sente órfão de candidato com efetivas chances eleitorais que tenha compromisso com a estabilidade fiscal; em outras palavras, que seja capaz de implementar as reformas que afastem os riscos de crescente descontrole fiscal.

Diante da dificuldade da candidatura do ex-governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, deslanchar, o mercado está em busca frenética de alternativas eleitoralmente viáveis.

O apresentador Luciano Huck, Foto GShow

O mercado já namorou as candidaturas de outsiders do mundo político, como o apresentador de TV Luciano Huck e o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, mas que já foram descartadas.

Na falta de opção de um candidato que defenda medidas de austeridade, que vêm sendo massivamente rejeitadas pela população, mas que tenha potencial eleitoral, lideranças associadas ao establishment buscam sondar e tentar arrancar compromissos de presidenciáveis tidos por elas próprias como populistas.

Ciro Gomes. Foto UOL

No momento, essas lideranças estão se acercando da candidatura de Ciro Gomes,que, todavia, mesmo afirmando compromisso com o ajuste fiscal duro,  mantém o discurso desenvolvimentista, o que causa forte reação contrária na turma vinculada ao setor financeiro e rentistas.

* Professor de economia da Universidade Federal de Sergipe