A morte e a morte de Eliane Berger

Guido Mantega e esposa Eliane Berger, foto Divulgação

Em setembro do ano passado, a longínquos um ano e dois meses atrás, a Lava Jato, até então mais incensada do que discutida, teve um forte baque em sua credibilidade. Não foi nenhuma trama do governo Temer para liquida-la, nem projetos casuístas do Congresso buscando autoproteção. A prisão do ex-ministro Guido Mantega pela Polícia Federal, autorizada pelo juiz Sérgio Moro, quando ele estava no Hospital Albert Einstein acompanhando a cirurgia da mulher, que sofria de câncer, foi vista por muita gente como um exemplo de que a Lava Jato, sem entrar no mérito de sua origem e de seus acertos, estava se desviando da rota e cometendo excessos imperdoáveis.

As justificativas pouco críveis para a prisão e para a rápida soltura, horas depois, segundo criminalistas, expunham um cerceamento ao direito de defesa, uma antecipação do julgamento dos acusados e uma execração pública sem limites – e sem volta. Na época, a Polícia Federal respondeu, em nota burocrática, que a detenção ocorreu “de forma discreta”. Blogueiros canalhas postaram, em festa, que a cirurgia da mulher do petista Mantega “podia ser uma farsa para escapar da Lava Jato”. Acreditem, pesquisem no google, vão achar os autores.

A psicanalista Eliane Berger, mulher de Mantega, morreu neste domingo, 12, aos 56 anos, no mesmo hospital em São Paulo que foi cenário da caçada a Mantega. Casada com o economista há 22 anos, Eliane lutava desde 2011 contra um câncer no intestino. Nos últimos dias, teve piora do seu quadro de saúde e sofreu falência múltipla dos órgãos.

A primeira morte de Eliane, no entanto, ocorreu antes. “Guido e Eliane suportaram um prolongado sofrimento nos últimos anos, agravado por inaceitáveis manifestações de ódio e perseguição. Ela merece descanso e ele, o nosso carinho e respeito por sua dedicação ao Brasil”, diz nota, distribuída pelo PT. Na época, o ex-ministro foi acusado pelo empresário Eike Batista, em depoimento à Lava Jato, de ter pedido R$ 5 milhões para pagar dívidas de campanha do PT. Moro revogou a prisão do ex-ministro após tomar conhecimento do estado de saúde da sua mulher. Mas o estrago estava feito. Depois disso, ele nunca mais foi chamado pelas autoridades.

Mantega e a esposa mal podiam sair em público, mesmo antes da prisão do ex-ministro, para não serem hostilizados. Em fevereiro de 2015, correu as redes sociais um vídeo onde Mantega era agredido verbalmente dentro do hospital ao acompanhar a mulher com câncer. No vídeo, é possível ouvir frases como “não tem vergonha na cara”, “vai para o SUS” e “filho da puta”, ditas por um grupo de homens e mulheres no salão do hospital. Numa rara entrevista, em maio passado, à Folha, Mantega falou do calvário do casal. E disse esperar que “a Justiça faça justiça”. Não há nenhum sinal de que isso vá acontecer.

Que Eliane fique em paz.

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Ricardo Miranda
Ricardo Miranda Filho é jornalista e analista sênior de informações. Formou-se na Universidade de Brasília em 1987. Por mais de 20 anos, exerceu as funções de repórter, editor, correspondente e chefe de Sucursal em alguns dos principais veículos de comunicação do País: O Globo, Jornal do Brasil, Folha de S.Paulo, Istoé e Correio Braziliense. Trabalhou na FSB Comunicação, onde, por oito anos, foi diretor do núcleo da Mídia & Análise. É professor licenciado de Jornalismo da PUC no Rio. Entre as premiações que recebeu estão o Prêmio Esso de Jornalismo, com a equipe de IstoÉ, e Menção Honrosa no Prêmio Vladimir Herzog.