A rua como passarela

Da série “Prestando atenção no mundo”

Certa vez um amigo importante, escritor da Academia Brasileira de Letras, discorrendo sobre a profissão de fotógrafo disse-me:

– Para ser um bom fotógrafo você tem de ser, antes, um humanista. Deve ter a preocupação de ajudar a melhorar o mundo.

Demonstrei-me lisonjeado pela parte que me tocava, agradeci, me despedi e fui-me embora. Mas fiquei a pensar, a tentar entender com maior profundidade as palavras do meu ilustre conhecido.

É, pode ser que tenha razão o cortês acadêmico. Olhar de fotógrafo, além de ser atento e rápido, deve ser plural, amplo. E, sobretudo, sensível para perceber a natureza dos fatos e, mais ainda, a chamada alma humana. Digo isto porque, sinto, essa sequência de fotos me parece atender aos requesitos ditos acima.

Sempre que estou a ouvir rádio, lendo um jornal ou revista, vendo a tevê ou a viajar pelas páginas da Internet, deparo com notícias sobre o grande volume de pessoas desaparecidas. Impressionante o tanto: a cada 11 minutos uma criança ou um adulto desaparece no Brasil. Imagine mundo a fora. É enorme o total de indivíduos que perdem contato com suas famílias ou conhecidos, com seus lares. A quantidade de pessoas que abandonam suas residências e vão morar nas ruas chega ao assustador número de 52 mil aqui em nosso país.

Eu mesmo, tempos atrás, tive um colega nessas condições. Pude sofrer junto com seus familiares e amigos em comum a dor e a dúvida sobre seu paradeiro. “AN” teve aquela falha de memória que popularmente se denomina surto. Ninguém sabia que destino “AN” tinha tomado. Menos ainda se havia sofrido algum tipo de violência, um sequestro, algo mais grave. Ainda mais se resolvera isolar-se por autônoma vontade.

Para sorte de todos, “AN” acabou sendo localizado, por acaso. Uma senhora moradora da praça onde ele tomara como “endereço”, numa cidade do interior de São Paulo ajudou na solução do problema. Psicóloga com aperfeiçoamento em humanas, achou estranho que um morador de rua fosse ter maneira de comportar-se, falar o idioma com correção, e até alimentar-se tão diferente de alguém de extrema pobreza. Apesar de maltrapilho, não parecia um indivíduo sem referências familiares. Com auxílio da polícia, felizmente, foi devolvido para casa e, depois de alguns meses de tratamento, recuperou a razão e tentou dar novamente curso normal à sua vida

Pois bem. Ando por aí, a prestar atenção no mundo. Com minha profissão pendurada no pescoço. Não deixo que minha atividade de fotógrafo e jornalista se limite à cobertura dos fatos, aos acontecimentos repletos de autoridades e gente famosa, importante.

Dia desses, transitando pelas avenidas da capital do País, vi mais uma vez a figura dessa senhora que circula não somente pelas Super-Quadras do Plano Piloto, mas também pela Esplanada dos Ministérios. Em várias ocasiões cruzei por nossa solitária personagem. Enigmática figura.

Ela exibe forma pouco convencional para moradora de rua. Cabelos pintados de amarelo, esvoaçantes, apesar de mal cuidados, batom, maquiagem cuidadosa. Traja-se com certa lógica visual, do vestido aos sapatos, de acordo com a moda. E mais, parece desfilar e não simplesmente caminhar. Porte de manequim. Fashion, na linguagem sofisticada. Enigmática figura, realmente.

Não resisti em fazer essas fotos aí. Primeiro, porque me lembrei do drama do amigo “AN”. Depois, recordei das palavras do importante pensador que me falara do papel humanista que um fotógrafo deve ter. E ainda, imaginei ser a nossa vistosa personagem uma dessas pessoas que, por alguma razão, perdeu a racionalidade.

Confesso que, à primeira vista, tive a suposição de ser uma produção de filme, cena de vídeo, algo assim. Era, para mim, imagem diferente, a ponto de chamar-me atenção. Mas não. Eu estava diante de algo real. Depois, fiquei a imaginar: minhas fotos podem ser uma contribuição para auxiliar no reconhecimento de sua identidade. Sem nenhuma pretensão.

Confesso também, fiquei impressionado com o conjunto visual da nossa desconhecida personagem. A luz de maio no Centro-Oeste é limpa, brilhante, reluzente. Impactante. Uma luz digamos moderna. Parece com Brasília.

Ao encontrar com meus amigos na hora do almoço, narrei o fato. Disseram-me já terem mantido conversa com a andarilha. Todos têm algo dizer sobre ela. Até um suposto nome. Ora Joana, ora, Ana. Ora Mariana, ora Juliana. Geniosa, detalhista. Fala pouco. Mas sabe-se que tem bom português. Uns garantem que fala francês. Leva livros de poesia em suas bolsas. Bolsas, não. Sacolas de plástico, aquelas de supermercado. Mantém seus pertences guardados em uma mala, depositada num posto de gasolina. Lá é “sua casa”. Não aceita dinheiro, somente coisas. Comida, livros, roupas.

Ao mesmo tempo, demonstra total desconhecimento de suas próprias referências. Não sabe de onde vem e menos ainda para onde vai. Não diz seu nome. Evidências de perda de equilíbrio e razão, visível carga de amnésia.

Observando-a, calculo que tenha em torno dos cinquenta anos, talvez menos. Possivelmente mais. Quem sabe essas fotos possam ser a chave para a descoberta de seu paradeiro. Para mim, é um mistério.

Pode ser que o olhar humanista do fotógrafo contribua com o destino dessa figura misteriosa e sem sorriso, como as mulheres magrinhas e tristonhas da formidável pintura de Amedeo Modigliani.

OrlandoBrito

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Um dos mais conhecidos e premiados fotógrafos do país, Orlando Brito nasceu em Minas e chegou a Brasília ainda menino, no início de sua construção, em 1956. Fez viagens por mais de 60 países, em coberturas presidenciais, papais e esportivas, como Copas do Mundo e Olimpíadas. Tem seis livros publicados e quatro outros no prelo. Recebeu vários prêmios, entre eles o Press Photo do Museu Van Gogh. de Amsterdã. Onze vezes Prêmio Abril de Fotografia. Bolsa da Fundação Vitae, de São Paulo, em 1991. Várias exposições individuais e obras no acervo de diversos museus do mundo.