Armação

O cartola. Foto Orlando Brito

O ano era 1986, Copa do Mundo do México. A seleção brasileira ainda era um timaço, mas envelhecido e machucado. No corpo dos veteranos e na alma da torcida. Pena que os mais jovens não viram jogar, só ouviram falar da qualidade. Principalmente do time que disputou e perdeu a Copa de 1982, quatro anos antes na Espanha, um dos melhores de todos os tempos, com certeza o melhor depois  da grande seleção de 1970, a do tricampeonato, também disputado no México. Foram dois grandes times, com talentos reconhecidos eternamente. Contudo, os times de 1982, principalmente, e o de uma copa depois, ficaram na história como perdedores.

Para a Copa de 1986, a direção da CBF decidiu manter o técnico, o excelente Telê Santana. A cartolagem resolveu também que o chefe da delegação seria o deputado estadual e presidente da Federação de Futebol de São Paulo, Nabi Abi Chedid. O dublê de político e dirigente esportivo era polêmico para mais de metro e tinha uma verdadeira ojeriza da imprensa – como a mídia era conhecida. Pois bem, a Copa coincidiu com o início de um tipo jornalismo na televisão que passou a misturar humor com informações. Era o embrião de programas que germinaram anos depois, como o CQC e o Pânico na TV.

Despontava então a inteligência e a verve do carequinha Marcelo Tas. Já no México, Chedid, que era muito enrolado e envolvido em inúmeras suspeitas, evitava tratar de qualquer assunto que não fosse a seleção. Os repórteres até perguntavam sobre o time, afinal problemas e polêmicas não faltavam; Leandro e Renato Gaúcho foram cortados por indisciplina, Cerezo contundido, Falcão e Sócrates fora de forma, Zico com problemas nos joelhos e por aí afora… Agora, todos queriam saber também das possíveis sacanagens envolvendo o chefe da delegação. Um dia, irritadíssimo com as perguntas consideradas impertinentes do Tas, disse que  responderia única e exclusivamente sobre futebol. O repórter não titubeou e mandou:

– Caro deputado, qual a sua próxima jogada?

Enfurecido, o cartola deu as costas para a câmera e se mandou.

Enquanto a caduquice não chega, gosto de exercer a memória para ver se ela demora um pouco mais a ir embora. Hoje me lembrei dessa história, que escrevi só com as lembranças, para destacar a eterna aliança da política com o futebol, com uma sutil diferença: o futebol, às vezes, é bom ou muito bom, a política quase nunca é. Embora fora dela não haja solução. E não é que, por causa disso tudo, me veio a oportunidade de questionar quase a mesma coisa, com um pequeno adendo.

– Qual vai ser a próxima jogada descoberta?

Não sei a resposta, mas existe uma rapaziada que, de antemão, já acredita na versão.