O choque dos intocáveis: imprensa x força tarefa

Juiz Sérgio Moro. Foto Orlando Brito

A imprensa – da qual faço parte, com muita honra e orgulho – se considera intocável. Somos o quarto poder, não gostamos de errar e muito menos de reconhecer nossos erros. Mas acabamos dando a mão à palmatória quando a credibilidade entra em jogo. Nos últimos tempos, ganhamos um competidor à altura na categoria intocabilidade: os investigadores de Curitiba e as instituições que representam. Depois do tsunami que provocaram ao desvendar o maior esquema de corrupção do país – um trabalho incomparável e sem precedentes –  os comandantes da força-tarefa, entusiasmando também juízes e procuradores de outros lugares, parecem ter assumido o papel de super-heróis de forma total e permanente.

Mais: passaram ao protagonismo em processos que não são apenas judiciais, participando do debate em outras esferas da vida social, palpitando sobre a conjuntura e as ações de outros poderes. Isso pode até ser muito saudável. Desde que, ao entrar nesse campo, atuem como jogadores iguais a todos os outros, que disputam a bola, ouvem vaias da torcida e levam caneladas dos adversários. Não podem querer entrar no jogo e não apanhar.

É o que acontece, por exemplo, quando o juiz Sérgio Moro manda uma carta indignada à Folha de S.Paulo reclamando de um artigo com críticas pesadas a ele – em vez de pedir espaço e rebater com outro artigo tão duro quanto. Ou quando os promotores de Justiça resolvem entrar com uma ação contra o mesmo jornal por se sentirem ofendidos pelas críticas feitas em off por especialistas à peça em que denunciaram o ex-presidente Lula.

Do outro lado da moeda, todos os dias procuradores e autoridades de Curitiba dão entrevistas criticando decisões e projetos do Executivo e do Congresso. Ontem mesmo, o procurador Carlos Fernando Lima desancava, na GloboNews, o projeto de repatriação de recursos, que poderá incluir na versão final os parentes de políticos, até agora excluídos. Seu colega Deltan Dallagnol faz campanha quase diária na mídia pela aprovação dos dez pontos contra a corrupção no Congresso. E tudo bem.

Tudo isso é saudável, repito, nas democracias, em que todos têm o direito de falar e serem ouvidos. E também o direito de recorrer à Justiça quando se sentirem ameaçados de fato. Só não é quando um dos lados começa a ser sentir tão importante, tão senhor da história, que acha que não precisa ouvir os outros e pode sair distribuindo puxões de orelhas para todos os lados.

Essa disputa em torno do quarto poder promete.

 

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