Os desvios que fizeram o acelerado Doria perder o rumo na estrada

Helena Chagas descreveu aqui como João Doria encolheu ao confundir marketing com gestão. É uma boa explicação para a queda dele nas pesquisas de opinião pública, a praia em que pretendia surfar.

O tombo de Doria também tem outros ingredientes. Para quem se vendeu com sucesso como um não político, é justamente em sua atuação política que seus tropeços são mais evidentes.

A turma de Doria espalha que ele tem nada menos que 7 convites de partidos para entrar na corrida presidencial. O fato de ter virado o queridinho dos oportunistas de sempre é o que menos importa. O relevante é, para quem se dizia não político, usar isso como trunfo.

Doria também vacila na disputa com Geraldo Alckmin. Começou comendo pelas bordas. Seu sucesso, além de se vender como gestor moderno, foi o discurso redondinho em que se apresentou como um contraponto ao PT, o mais eficaz anti-Lula.

Seu plano de voo partiu do ninho tucano, boa plataforma paulistana. Com a surpreendente vitória em primeiro turno, ele já embarcou com assento na famosa janelinha do Romário.

Foi uma ascensão meteórica.

Quem sobe essa montanha russa geralmente não está preparado para a descida.

Na queda, Doria optou por brigar no ninho em que foi gestado.

Para fugir da pecha de traidor em uma ruptura com Alckmin, seu criador, comprou a briga pelas beiradas. Aceitou, por exemplo, a provocação de Alberto Goldman – político com relevância na luta pela democracia, hoje mais uma das vozes experientes no universo tucano.

Na ordem natural das coisas, em suas batalhas cotidianas, não há explicação alguma para Doria elevar Goldman ao patamar de Lula. Mas ele o fez.

Ficou desproporcional. Ainda mais quando seus principais secretários também entraram na briga.

De duas, uma: Doria mudou seu plano de voo e resolveu apostar em uma inacreditável briga paroquial ou, mais provável, está usando o confronto com Goldman para se mudar para outros ninhos.

Tipo o “Me dê motivo”, como ensinou o mestre Tim Maia.

A conferir.


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Andrei Meireles
Repórter de Política há mais de 40 anos, Andrei Meireles passou pelas redações dos jornais O Globo e Jornal de Brasília, das revistas IstoÉ e Época, foi comentarista político do boletim diário da revista Época na rádio CBN e colunista do Fato Online. Um dos mais premiados jornalistas brasileiros, tem dois prêmios Esso (de Reportagem em 2000 e de Jornalismo em 2001) e três prêmios Embratel (de Jornais e Revistas em 2001 e 2004 e o Grande Prêmio Embratel Barbosa Lima Sobrinho em 2009).