O Efeito Cárcere

“Eu não sou mais um ser humano, eu sou uma ideia.” Uma das frases mais marcantes do discurso do ex-presidente Lula no alto do carro de som estacionado em frente à sede do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, naquele 7 de abril em que foi preso, deve ter soado pretensiosa e até risível para aquela parcela de brasileiros que o detesta. Mas começa a soar premonitória agora que saíram as duas primeiras pesquisas de intenção de voto com o petista atrás das grades. Datafolha e Vox Populi mostraram divergências relevantes nos números, mas ambas exibem um Lula ainda imbatível como candidato e, no mínimo, o cabo eleitoral dos sonhos, caso fique fora da disputa. No Vox Populi, encomendado pelo PT, e divulgado nesta terça, 17 – você não vai achar essa pesquisa com facilidade nos jornalões, ao contrário do Datafolha -, o ex-presidente Lula não só manteve a liderança, como ampliou sua vantagem sobre os demais candidatos às eleições de outubro. Na pergunta espontânea, Lula marcou 39% (eram 38% na pesquisa Vox de dezembro de 2016), mais de quatro vezes a intenção de voto no segundo colocado, o deputado-capitão Jair Bolsonaro, com 9% (!). Mas é nos cenários para o segundo turno que Lula dispara. Ele bate todos com folga, sendo a maior surra contra Geraldo Alckmin, do PSDB: 56% x 12% (eram 50% x 14% em dezembro).

Lula marca, ainda, 55% x 17% de Bolsonaro (eram 49% x 18% em dezembro), 54% x 16% contra Marina Silva, da Rede, (eram 52% x 21%) e 54% x 20% contra Joaquim Barbosa, do PSB (eram 52% x 21%). Outro dado relevantíssimo é uma espécie de Efeito Cárcere: agora que está preso, a rejeição a Lula despenca. Os eleitores que dizem não votar em Lula de jeito nenhum são 36% do total. O número já está perto do índice da eleição de 2002 (33%); em 2016, chegou a 57% e, em dezembro passado, estava em 39%. A rejeição de Bolsonaro (31%) e Alckmin (29%) começa a se aproximar da de Lula. Nada menos que 23% do eleitorado votaria em um candidato apoiado pelo petista. A pesquisa aponta, ainda, que outros 26% considerariam votar no candidato indicado por ele. É espantoso até para quem confia no carisma do ex-presidente. O diretor do Vox Populi, Marcos Coimbra, diz que a pesquisa mostra que “aumentou o sentimento de que o ex-presidente é vítima de uma injustiça e de que recebe um tratamento desigual por parte do Judiciário”. Dos entrevistados, 41% dos brasileiros consideram que Lula foi condenado sem provas, 44% consideram que a prisão de Lula foi injusta e 58% acham que ele tem o direito de ser candidato novamente à presidência da República, mesmo depois da prisão.

As intenções de voto em Lula medidas pelo Vox Populi destoam da pesquisa Datafolha divulgada pouco antes. No Vox, aferida a intenção de voto estimulada para presidente, Lula pontuou 47% das intenções nos dois cenários pesquisados. Nesse levantamento, Lula tem desempenho de até 16 pontos percentuais a mais do que o registrado no Datafolha. O instituto da Folha de S. Paulo mostra Lula com 31% dos votos na pesquisa estimulada, quando são apresentados cartões com nomes dos candidatos. O Datafolha, porém, confirma, mesmo com números diferentes do Vox Populi, a perplexidade de parte expressiva da sociedade com a prisão de Lula: para 40% a prisão foi injusta e 48% consideram que ele deveria disputar as eleições de 2018.

Vox e Datafolha são absolutamente uníssonos em pelo menos um ponto: Michel Temer não consegue, nem por decreto, sair do atoleiro da popularidade. O Datafolha indica que o governo Temer é reprovado por 70% dos entrevistados. Só 6% dos brasileiros consideram seu governo ótimo ou bom. Já para o Vox Populi, o desempenho do presidente Michel Temer é avaliado como positivo por 4% dos entrevistados, enquanto 73%, a veem como negativo. Os demais o apontaram como regular. Episódios sucessivos que colocam o presidente na mira de investigações, inclusive com a prisão recente de três amigos, inviabilizam qualquer tentativa de recuperar a popularidade do governo. Sejam 4% ou 6% os brasileiros felizes com Temer, ainda assim fica a curiosidade, pelo menos para mim. Quem são, onde vivem, o que comem esses 6% de brasileiros que ainda aprovam o esse governo?

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Ricardo Miranda
Jornalista e analista sênior de informações. Formou-se na Universidade de Brasília em 1987. Por mais de 20 anos, foi repórter, editor, correspondente e chefe de Sucursal em alguns dos principais veículos de comunicação do País: O Globo, Jornal do Brasil, Folha de S.Paulo, Istoé e Correio Braziliense. Trabalhou na FSB Comunicação, onde, por oito anos, foi diretor do núcleo de Mídia & Análise. É diretor de Atendimento da Santafé Ideias, no Rio, além de colaborador da Avenida Comunicação. Também é sócio-fundador da RMPJ e da Revista Tablado. Entre as premiações que recebeu estão o Prêmio Esso de Jornalismo, com a equipe de IstoÉ, e Menção Honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. É pai de Bruno e Gabriela.