Moro, o fotogênico

O juiz Sérgio Moro não dispensa um bom evento onde seja o centro das atenções. Em dezembro de 2016, participou da entrega do prêmio Brasileiro do Ano, em São Paulo, promovido pela revista IstoÉ. Ficou famosa a foto de Moro e Aécio Neves, rostos quase colados, conversando animadamente, tendo à frente um circunspecto presidente Temer. Nesta terça, 15, Moro voltou a participar de um evento criado para incensa-lo e a posar ao lado de um tucano. Não, dessa vez não foi Aécio Neves, que está queimado e corre o risco de nem sair candidato. Em Nova York, no Museu de História Natural, onde o juiz foi premiado pela Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos, Moro e João Doria Junior, que o chamou de “herói nacional”, posaram lado a lado, de black tie, junto com suas esposas. Sem perder tempo, Doria, que concorre ao governo de São Paulo pelo PSDB, postou a foto nas suas redes sociais. Em 20 horas, a foto teve 34.516 curtidas.

Moro não viu problema. “Estou num evento social e tiro uma foto, isso não significa nada. É uma bobagem isso”, disse Moro, que afirmou ter uma “relação pessoal” com Dória. Decida você se Moro, com o prestígio que tem, acabou dando uma mãozinha para que Doria chegue ao Palácio dos Bandeirantes. E se fica bem para um juiz – que entre outras coisas ajudou a colocar o ex-presidente Lula, do PT, na cadeia – tirar, sem cerimônia, fotos ao lado de tucanos. Nos comentários da foto no Instagram de Dória, as opiniões se dividem. “Hahaha, espertinho hein”, comentou um internauta. “Foto linda!”, comemorou outra. “Não esconde que ama os tucanos”, sentenciou um terceiro.

Em outro compromisso, nesta quarta, 16, no hotel Pierre, um dos mais caros da cidade, Moro fez palestra num evento pago, organizado pelo Lide, do mesmo João Doria. Foi o principal palestrante. O regabofe internacional de Doria, além de Moro, também teve palestra do ministro Carlos Marun, que representa Michel Temer, já denunciado como corrupto e chefe de quadrilha e também investigado por propinas nos portos. Doria, por sua vez, já foi cliente da firma Mossack Fonseca e movimentou recursos no Panamá, um dos maiores paraísos fiscais do mundo.

Foto PT

No evento da Lide, Moro, com uma grava vermelha, estava bem-humorado. E fez piadas com política. “Tinha uma gravata vermelha e uma gravata azul, isso pode ter diferentes sentidos”, começou. “A vermelha poderia significar Partido Republicano ou Partido dos Trabalhadores. A azul poderia ser o PSDB ou até o Partido Democrata.”

Essa é terceira viagem de Moro aos Estados Unidos neste ano. Sua onipresença em terras ianques despertou até o comentário do ex-ministro e empresário Luiz Fernando Furlan que Moro não pode andar pela Quinta Avenida sem ser abordado. Nem todo mundo, porém, está disposto a festejá-lo. Dezenas de manifestantes se juntaram na porta do Museu de História Natural, debaixo de chuva, para cantar “Moro salafrário, juiz partidário” e chamar de golpistas os convidados do jantar de gala em homenagem ao juiz de Curitiba.

Dois dias atrás, é bom lembrar, uma pesquisa CNT/MDA revelou que, para 90% dos brasileiros, o Poder Judiciário age de forma parcial no Brasil. Segundo a pesquisa, para 90,3% a Justiça brasileira não age de forma igual para todos. Apenas 6,1% consideram que age de forma igual. A avaliação sobre a atuação da Justiça no Brasil é negativa para 55,7% (ruim ou péssima) dos entrevistados. 33,6% avaliam a Justiça como sendo regular e 8,8% dos entrevistados avaliam que a atuação da Justiça no Brasil é positiva (ótima ou boa).

A boa vontade de Moro em posar com tucanos não ajuda a mudar essa percepção.

Deixe seu comentário
COMPARTILHAR
Artigo anteriorO que o Centrão está negociando para se unir?
Próximo artigoMoreira da Silva – A vergonha de Kid Morengueira
Ricardo Miranda
Jornalista e analista sênior de informações. Formou-se na Universidade de Brasília em 1987. Por mais de 20 anos, foi repórter, editor, correspondente e chefe de Sucursal em alguns dos principais veículos de comunicação do País: O Globo, Jornal do Brasil, Folha de S.Paulo, Istoé e Correio Braziliense. Trabalhou na FSB Comunicação, onde, por oito anos, foi diretor do núcleo de Mídia & Análise. É diretor de Atendimento da Santafé Ideias, no Rio, além de colaborador da Avenida Comunicação. Também é sócio-fundador da RMPJ e da Revista Tablado. Entre as premiações que recebeu estão o Prêmio Esso de Jornalismo, com a equipe de IstoÉ, e Menção Honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. É pai de Bruno e Gabriela.